Campanha da Acij omite reais problemas do HMSJ

Em um show de ilusionismo, o trabalho do mágico consiste em criar algo fantasioso, que esconde o que realmente está acontecendo. Na análise de movimentos sociais joinvilenses, as mesmas técnicas estão sendo usadas pela Associação Empresarial de Joinville (Acij) com a fórmula mágica da campanha “Eu abraço o São José”. Apresentada como solução para o atendimento e estrutura da instituição, essa ação promove prefeito e empresários enquanto esconde a verdadeira situação do hospital.

Programada para durar três meses, a campanha impulsionada pela principal entidade empresarial da cidade foi lançada em 21 de março. O objetivo de arrecadação anunciado é de R$ 1 milhão, para reequipar todo o Hospital São José. Esse recurso está sendo captado por meio da venda de camisetas ao custo de R$ 50 a unidade e da utilização de leis de renúncia fiscal para empresas que fizerem doações. Também estão previstos pedágios e ações publicitárias. O dinheiro será gerenciado por uma equipe destacada pela própria Acij.

O que está por trás da campanha?

Essa atitude se propõe a ser uma “ação prática” para tentar reverter a situação do hospital. Apesar de aparentemente relevante, uma análise mais atenta revela outra situação. De acordo com um levantamento feito pela administração do São José, atualmente são necessários R$ 17 milhões para revitalizar o hospital. Esse valor cobriria apenas investimentos na parte já em atividade. Além disso, requerem-se R$ 14 milhões para completar o Complexo Ulysses Guimarães II. Ao total, seria preciso o montante de R$ 31 milhões para deixar o Zequinha em plenas condições.

No documento produzido pela instituição “Plano de Investimentos Bens de Ativo Permanente 2013”, os problemas foram divididos em nove categorias que precisam ser revitalizadas. Os itens vão desde aparelhos médicos até a reforma de prédios e instalações. Para o diretor do Sinsej e agente administrativo do hospital Tarcisio Tomazoni Júnior, a campanha da Acij não atende às reais necessidades. “Arrecadar R$ 1 milhão tem um efeito midiático muito maior do que na prática. Esse dinheiro daria para fazer algo, claro, mas não serviria para muita coisa”, destaca. Ele afirma que a campanha parece colocar uma maquiagem no fato de o hospital precisar de um grande investimento.

Tomazoni observa duas vertentes principais do problema. A primeira é o modo de administração do hospital, que tende a beneficiar empresas privadas. A segunda é a grave situação da estrutura e manutenção. Entre os dois, ele assinala que o principal é o segundo. “Se o hospital está tão sucateado é devido à total ausência de planejamento das administrações. Os problemas vão desde pintura, elétrica, hidráulica e refrigeração. E tudo isso se dá por ausência de manutenção”. Além disso, ele enfatiza o estado de abandono em que se encontram equipamentos, em muitos casos sem investimentos ou terceirizados. Grande parte destes problemas são decorrência da falta de concurso público, para profissionais que façam a manutenção.

Problema maior do que parece

Quando a campanha foi lançada na Câmara de Vereadores, em 20 de março, apenas o vereador Adilson Mariano (PT) contrapôs o discurso dos empresários. “O que está acontecendo é na verdade uma campanha de marketing que beneficiará somente a eles, que sairão com uma boa imagem e abaterão as doações de seus impostos. Quem terá que pagar mesmo será a população”. O parlamentar marxista acredita que o problema, na verdade, é muito maior do que parece.

A Auditoria Cidadã da Dívida traduz em números o motivo da precarização da saúde nacionalmente: dos pouco mais de R$ 2 trilhões de Orçamento da União em 2012, 47,19% foram usados para pagar juros e amortizações da dívida pública – dinheiro pago para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial. Enquanto isso, somente 9,37% foram divididos entre os municípios e os Estados. O setor da saúde ficou com a fatia de apenas 3,98% dos investimentos públicos no Brasil.

“A única solução para os problemas da saúde e também dos outros serviços públicos é o país parar de entregar a riqueza produzida pelos trabalhadores para os organismos internacionais do imperialismo norte-americano. E aí questiono a campanha da Acij”, dispara Mariano ao se referir ao acúmulo de problemas do São José, “pois, se os empresários se preocupassem de fato com a população, estariam ao lado dos movimentos sociais exigindo que aqueles 47,19% fossem colocados em saúde, educação, cultura e outras áreas”.

Origem de classe da campanha

Diante da situação em que se encontram os serviços públicos nacionalmente, a diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Saúde (Sindsaúde/SC) Mari Estela Eger vê com preocupação a campanha da Acij. Ela lembra que o atual prefeito, Udo Döhler comandou o maior hospital privado da cidade durante muito tempo e também foi, por anos, presidente da associação empresarial.

Mari afirma que para entender o que significa a campanha “Eu abraço o São José” é necessário ter claro de qual classe social é a iniciativa. Ela destaca que os empresários exercem grande pressão sobre os governos para que se privatize o Sistema Único de Saúde (SUS). “A realidade é que o SUS está abandonado. Os governos não fazem os investimentos em ações para que ele funcione como manda a lei”. O objetivo dos empresários, afirma a sindicalista, é fazer com que pareça justificável entregar um serviço público para empresas privadas. Ela explica que essa entrega pode acontecer na forma camuflada dos novos modelos de gestão da saúde, como o caso das Organizações Sociais (OSs), ou da terceirização de cada vez mais setores.

[Matéria divulgada no Informativo do Sinsej, edição nº 13 abril/maio de 2013]

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