A imprensa tem lado. E não é o lado dos trabalhadores
Toda imprensa tem lado. Essa é uma verdade que muitos jornalistas e profissionais do meio preferem não dizer em voz alta, mas que qualquer um que acompanha os noticiários nacionais e locais já percebeu na prática. Rádios, portais e jornais não são flutuantes, neutros, acima do bem e do mal. São empresas. E empresas têm donos. E donos têm lados. E esses lados são pautados pelo financiamento do veículo de comunicação, majoritariamente vindo dos governos da vez.
Nesse sentido, muitos servidores se perguntam por que o Sinsej não denuncia, na TV e em outros meios, o que acontece no dia a dia da cidade, no serviço público, no cotidiano dos trabalhadores. A resposta é simples: nossas denúncias comprometem o financiamento de TVs, rádios, outdoors, que vem do governo municipal. Em todas as campanhas tentamos emplacar anúncios e a resposta dos meios é a mesma: “o jurídico não autorizou”, um eufemismo para “não queremos ficar mal com o governo”.
É por isso que o Sinsej precisa do seu próprio jornal, do seu próprio site, das suas próprias redes, da sua própria imprensa. Não por vaidade institucional, mas porque a experiência recente nos mostrou, repetidas vezes, os limites de depender da imprensa comercial para fazer chegar à população e aos servidores informações que colocam os governos em pauta.
Uma tradição que não começou aqui
Ter uma imprensa própria não é invenção do Sinsej, nem novidade dos tempos das redes sociais. É uma tradição tão antiga quanto o próprio movimento sindical e operário. Desde o século XIX, trabalhadores organizados em sindicatos, associações e partidos perceberam que, se dependessem apenas dos jornais das classes dominantes para serem ouvidos, sua voz nunca chegaria inteira ao público. No máximo, quando chegasse, seria filtrada pelos interesses de quem financia esses veículos. No Brasil, essa tradição atravessou décadas e diferentes correntes do movimento operário, de publicações do início do século passado à imprensa sindical que resistiu até mesmo em períodos de repressão política.
O que diferencia esse tipo de imprensa da grande mídia comercial não é só o conteúdo, mas o próprio modelo de sustento. Um jornal sindical, como o do Sinsej, existe a partir da contribuição de quem ele representa: os próprios servidores filiados. Um jornal, uma rádio ou um portal comercial, por outro lado, vive essencialmente de publicidade, e boa parte dela vem de contratos com o poder público ou de empresários que pautam a política local. É esse detalhe, aparentemente técnico, que explica por que um lado tende a noticiar o que incomoda o prefeito e o outro tende a evitar.
Vale lembrar, inclusive, um alerta que a própria esquerda brasileira já fez a si mesma: partidos e centrais sindicais que nasceram justamente de tradições operárias e de imprensa de classe, ao chegarem ao poder, muitas vezes preferiram negociar espaço com os grandes grupos de comunicação em vez de fortalecer sua própria imprensa independente. O resultado, décadas depois, é uma população acostumada a só enxergar como “imprensa de verdade” aquela que tem contrato publicitário robusto e edifício de vidro, com um enfraquecimento da capacidade de qualquer organização de trabalhadores comunicar-se sem intermediário.
Relação do Sinsej com a imprensa local
No ano passado, durante a tramitação da Reforma Administrativa proposta pelo prefeito Adriano Silva (Novo), que ampliou cargos comissionados e elevou salários do alto escalão a um custo estimado em dezenas de milhões de reais por ano aos cofres públicos, o Sinsej fez o que faz um sindicato que leva a sério seu papel: começou a organizar os trabalhadores e promoveu uma campanha para chamar a população a participar das audiências públicas sobre o tema. Produzimos spots, contratamos veiculação, buscamos espaço em outdoors pela cidade. Mas vários desses meios simplesmente se recusaram a veicular o material. Alguns fornecedores de mídia exterior se recusaram a colocar as peças nas ruas. Não por falta de verba do Sinsej para pagar, mas por decisão própria de quem administra esses espaços.
O mesmo se repetiu neste ano com a PPP da Vertente Leste. Trata-se da proposta da Prefeitura, por meio da Companhia Águas de Joinville, de entregar à iniciativa privada, por 30 anos, a implantação e a operação do sistema de esgotamento sanitário de uma região que abrange os bairros Aventureiro, Iririú, Jardim Iririú e Comasa. Mais uma vez, o Sinsej se mobilizou para levar essa discussão à população e convocar a participação na audiência pública sobre o assunto. E mais uma vez, mesmo com o espaço já pago, várias rádios se negaram a veicular o spot de chamamento.
Os limites de ocupar espaços
Isso não quer dizer que devamos abandonar esses espaços. Pelo contrário: ocupar rádios, jornais, portais de notícias, outdoor é parte da estratégia de comunicação de qualquer entidade que queira ser ouvida além da sua própria base. É preciso seguir tentando, seguir pautando, seguir batendo na porta da imprensa comercial, até mesmo para escrever artigos como este, que denunciam as contradições desses espaços. Mas é preciso também ter os pés no chão: esses locais têm dono, e o dono decide o que passa e o que não passa.
É exatamente aí que mora a diferença da imprensa sindical. O jornal do Sinsej, o nosso site, as nossas redes, não pedem licença a ninguém para noticiar uma audiência pública, para explicar o que está em jogo numa PPP, para chamar o trabalhador a se manifestar. Não dependemos de agrado a prefeito nenhum, porque não vivemos de verba de publicidade institucional da Prefeitura nem verba empresarial, como fazem alguns sindicatos assistencialistas que oferecem um leque de serviços de empresas privadas. Nossa liberdade de pauta é garantida justamente por não estarmos financeiramente amarrados a quem estamos fiscalizando.
Concessão pública, interesse privado
Vale lembrar um detalhe que costuma passar batido: rádio e TVs são concessões pública. O espectro pelo qual uma rádio ou TV transmitem pertence ao povo brasileiro, é outorgado pelo Estado para exploração — em tese — no interesse público. Mas, na prática, quem detém essas concessões são empresas privadas, com donos, sócios, interesses comerciais e alinhamentos políticos explícitos. A concessão é pública; o uso que se faz dela, não. E quando o principal cliente de publicidade de uma emissora é a própria Prefeitura, fica fácil entender por que um spot que expõe uma privatização ou uma reforma administrativa bilionária simplesmente não encontra espaço na grade.
Por isso, o nosso jornal
Ter uma imprensa sindical forte não é luxo, é necessidade — e é herança de uma longa tradição de trabalhadores organizados que entenderam, muito antes de nós, que a liberdade de imprensa de verdade só existe onde não há dono a agradar. É a garantia de que a voz dos trabalhadores públicos de Joinville não dependa da boa vontade — ou da conveniência comercial — de quem tem outros interesses em jogo. Enquanto a imprensa comercial local segue, majoritariamente, alinhada à ordem estabelecida (porque é dali que vem o dinheiro), cabe ao Sinsej seguir fazendo o que a imprensa comercial, por sua própria estrutura, não pode fazer sempre: contar o que interessa à população, sem pedir licença ao prefeito.
