Setembro Amarelo: precisamos falar sobre viver, não só sobreviver

Setembro chegou de novo, com os laços amarelos, os posts, os folders de “valorização à vida”. Em muitos lugares, essa data virou motivo de decoração especial e palestras motivacionais, mas não passa disso. Não precisamos dourar a realidade com frases bonitas. Precisamos, antes de tudo, ser claros: o Setembro Amarelo serve para falar sobre suicídio. Esse é o sentido do Setembro Amarelo: reconhecer o sofrimento, romper o silêncio e buscar formas de prevenir e tratar aquilo que pode levar alguém a pensar que não vale mais a pena viver. Um chamado para olhar de frente o suicídio e o sofrimento psíquico como fenômenos humanos, que podem (e devem) ser evitados e tratados.

Aqui em Joinville, esse adoecimento tem rosto conhecido. Basta conversar com os trabalhadores para perceber algumas causas do sofrimento mental.

Na área da saúde e na assistência social, os trabalhadores convivem com sobrecarga, pressão, falta de funcionários, demandas reprimidas, sofrimento cotidiano, contato permanente com a doença, o sofrimento e a morte e uma enorme responsabilidade sobre suas costas.

Na educação, professores e funcionários  enfrentam burocracia e cobranças excessivas, pressão por resultados, salas superlotadas, violência, pressão dos pais, falta de estrutura e uma responsabilidade crescente por problemas que ultrapassam os limites da própria escola.

Em outros setores da Prefeitura, também encontramos formas de sofrimento que muitas vezes permanecem invisíveis ou ignoradas, como o assédio, o endividamento e problemas relacionados ao consumo abusivo de álcool e outras substâncias. Não se trata de apontar culpados ou transformar o trabalhador em problema. É preciso questionar o que está acontecendo com as pessoas e que condições de trabalho e de vida estão por trás desse sofrimento.

O desmonte da saúde mental em Joinville

É impossível tratar sobre o suicídio sem falar do desmonte das políticas públicas que deveriam garantir cuidado à população. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) não deveria funcionar à base de sobrecarga, falta de profissionais, vínculos precários e serviços insuficientes para atender uma demanda que cresce justamente porque as condições sociais e de vida estão cada vez mais difíceis. Quando faltam equipes e condições de trabalho adequadas, abundam serviços são fragilizados e  trabalhadores adoecidos, o resultado é uma rede que deixa de cuidar para tentar apenas dar conta da demanda. E isso não é inevitável, é consequência de escolhas políticas. 

Desmontar a saúde pública é arruinar a capacidade da sociedade de prevenir o sofrimento, acolhendo quem precisa de ajuda e impedindo que situações de sofrimento cheguem ao limite. Enquanto se fala em “valorização da vida” em setembro, é preciso questionar sobre que políticas concretas estão sendo construídas para que as pessoas tenham condições reais de viver.

 

Porque não basta sobreviver ao trabalho. É preciso ter condições de vida dignas, uma vida que valha a pena viver. 

Quem serve a cidade todos os dias merece viver com dignidade, ter um salário justo, um tempo de descanso real e um horizonte de futuro que valha a pena alcançar.

A luta pela saúde mental do trabalhador do serviço público é inseparável da luta contra toda precarização, contra a exploração, contra a privatização e pela construção de condições de trabalho e de vida verdadeiramente dignas. Não se trata de pedir que o trabalhador resista, aguente mais um pouco às condições que o adoecem, mas de transformar essas condições. O trabalhador precisa se reconhecer no seu local de trabalho e naquilo que produz. 

Neste Setembro Amarelo, convidamos todos os servidores a romper o silêncio e o estigma em torno do suicídio e do sofrimento mental. A romper também com a ideia de que cada trabalhador deve enfrentar sozinho aquilo que o adoece, como se todos os problemas fossem individuais. O sistema culpa o indivíduo pelo seu fracasso ou esgotamento, mas muitas das condições que produzem e agravam o sofrimento mental são coletivas. A organização dos trabalhadores também é um espaço de acolhimento e solidariedade, porque somente por meio da organização coletiva poderemos transformar as condições que nos adoecem.

Se você está passando por um momento difícil ou percebe que alguém próximo está sofrendo, procure ajuda. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS conta com diferentes serviços de cuidado em saúde mental, incluindo as UBSF e os CAPS. Em situações de urgência, procure uma UPA ou o serviço de emergência. 

O CVV (disque 188) também atende de graça, com sigilo, 24h por dia.

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