Agressão contra professores: uma epidemia que também afeta Joinville

A violência contra professores deixou de ser um amontoado de casos isolados para se tornar regra no cotidiano da educação pública brasileira. O que se vê nas escolas municipais e estaduais é apenas a superfície de um processo mais profundo: a precarização do trabalho docente, o sucateamento do serviço público, as perseguições a professores e a transferência das contradições do capitalismo para dentro da sala de aula.

O episódio ocorrido em um CEI de Joinville dá conta disso. Uma professora foi ameaçada e hostilizada com gritos e ofensas pela mãe de um aluno, dentro do ambiente escolar. A educadora e os demais membros da equipe se sentiram coagidos em seu local de trabalho, um espaço que deveria ser de segurança e respeito para quem ensina e cuida diariamente de crianças. O Sinsej, na ocasião, manifestou total repúdio ao caso e alertou que essa não é uma situação isolada, mas mais um capítulo da escalada de agressões contra profissionais da educação num cenário de omissão contínua dos governos.


O que dizem os números
Os dados nacionais e estaduais confirmam um agravamento de episódios de violência escolar contra professores. O estudo “Razões da epidemia de violência contra professoras e professores do Ensino Básico brasileiro” (2025), do Observatório do Estado Social Brasileiro, analisa a violência escolar como resultado de condições estruturais do sistema educativo, não como episódios isolados. A pesquisa aponta que 4 em cada 10 docentes já presenciaram agressões em ambiente escolar, e 1 em cada 10 já presenciou atentados à vida. No Rio de Janeiro, 16% dos professores relataram que suas escolas foram impactadas por tiroteios ou balas perdidas.

O adoecimento mental atinge altos índices na educação: em São Paulo, cerca de 112 professores são afastados por dia devido a problemas de saúde mental. No Paraná, mais de 8 mil profissionais foram afastados pelo mesmo motivo em 2024. A categoria é majoritariamente feminina (cerca de 78% no ensino básico), o que significa que as mulheres arcam com um ônus ainda maior de desgaste.

Em Santa Catarina, a realidade é igualmente perturbadora. Só em 2025, foram registrados 6.846 casos de violência na rede pública estadual, o que representa uma média de 44 casos por dia letivo. Nos últimos quatro anos, 4.819 professores foram vítimas de agressões dentro das escolas. Dados do SAEB mostram que 1 em cada 100 escolas catarinenses teve o calendário interrompido por episódios de violência, e 1 em cada 20 diretores relatou situações envolvendo porte de armas por estudantes. 

As raízes da violência
O estudo do Observatório do Estado Social Brasileiro elenca causas que vão além do comportamento individual do aluno, formando o que se pode chamar de um “ecossistema da violência”:

Em primeiro lugar, a retirada da autonomia pedagógica. A obsessão por indicadores como o Ideb e sistemas de progressão “quase automáticos” retira a autoridade avaliativa do professor, desqualificando seu saber pedagógico. O professor deixa de ser visto como referência e passa a ser tratado como mero executor de tarefas e cumpridor de metas.

Em segundo lugar, a plataformização e o controle remoto. O uso crescente de plataformas educacionais e mecanismos de controle mina a autonomia docente e drena recursos que deveriam ser destinados a salários e condições dignas de trabalho.

Em terceiro lugar, a desconexão com o futuro. Para muitos alunos de comunidades vulnerabilizadas, a escola deixou de ser uma promessa de mobilidade social. A “esteira produtiva” escolar leva frequentemente ao desemprego ou ao trabalho precário, gerando frustração e sensação de não pertencimento.

Por fim, os ataques ideológicos. Projetos que criminalizam a atividade docente, como o “Escola Sem Partido”, e o controle rigoroso do currículo transformam professores em alvos preferenciais de movimentos políticos de extrema direita.

Alunos PCD
As agressões de alunos com deficiência (PCD) contra professores também fazem parte da estatística, ainda que tenham diagnóstico diferente. Ou seja, é um fenômeno complexo que, na maioria das vezes, não deve ser interpretado como violência premeditada ou intencional. Em geral, esses episódios são a manifestação de crises que surgem, frequentemente, da falta de suporte adequado no ambiente escolar. Negligência do poder público e sucateamento da educação estão entre as principais causas.

A falta de profissionais de apoio, como cuidadores ou auxiliares, acaba sobrecarregando o professor regente. Sem o suporte necessário, o educador se vê sozinho para mediar as crises, o que pode elevar a tensão e o risco de agressões.

Salas de aula superlotadas, com estimulação sensorial excessiva, podem desencadear crises severas em alunos com TEA ou outras síndromes que envolvem hipersensibilidade sensorial. Um ambiente escolar despreparado para acolher essas necessidades torna-se um gatilho para comportamentos agressivos.

A falta de treinamento específico e protocolos para que educadores saibam como manejar crises de forma segura e eficaz agrava a vulnerabilidade de ambas as partes. Muitos professores não recebem capacitação em técnicas ou em estratégias de comunicação alternativa, o que os deixa desamparados diante de situações de crise.


A precarização da educação também agrava a situação. Dados recentes mostram que 68% dos professores brasileiros já sofreram algum tipo de violência no exercício da profissão, e a violência interpessoal nas escolas brasileiras aumentou 23% em 2024, totalizando 15.759 episódios. Essa epidemia de violência contra docentes é, em grande medida, fruto da precarização estrutural do trabalho e dos cortes de gastos na educação, que resultam em escolas sem acessibilidade efetiva, infraestrutura, salas lotadas e profissionais desassistidos.

O que fazer?
A violência contra professores não pode ser enfrentada com medidas paliativas e de apelo artificial, como a militarização das escolas ou a terceirização da gestão — soluções que apenas camuflam (e até pioram) os problemas e retiram ainda mais a autonomia pedagógica e democrática. O caminho exige enfrentar as contradições do capitalismo no interior da escola pública.

A valorização salarial e a garantia de vínculos efetivos são medidas centrais. O professor precarizado, submetido a contratos temporários, obrigado a atuar em múltiplas escolas e a fazer planejamentos específicos para cada criança de acordo com a deficiência não tem condições de construir vínculos de confiança com os alunos — elemento fundamental para a prevenção de conflitos. Em Joinville, a luta do Sinsej contra o descaso do governo Novo e sua política de assédio e retaliação contra servidores é parte importante desta batalha.

O investimento em infraestrutura, ações integradas de inclusão e apoio são igualmente urgentes. Reduzir o número de alunos por turma, garantir infraestrutura adequada (bibliotecas, laboratórios, salas climatizadas) e assegurar a presença de profissionais de apoio psicossocial nas escolas são medidas essenciais para fazer frente ao problema. O trabalho com as famílias, de orientação e encaminhamentos também devem ser a tônica de uma política integradora e inclusiva.

Enquanto apenas as consequências forem atacadas, sem um combate às causas, continuaremos com políticas públicas e de saúde dos servidores alheias à resolução dos problemas.


A luta nos chama
O caso do CEI em Joinville e de tantos outros não são exceções. São a regra de um sistema que trata a educação como despesa, não como direito. Enquanto o capitalismo seguir impondo suas leis de acumulação e exploração, a violência contra os trabalhadores da educação continuará a se reproduzir.

Mas há uma saída. Ela passa pela organização coletiva dos servidores públicos. O Sinsej está na linha de frente dessa batalha em Joinville. A categoria já demonstrou sua força nas assembleias e paralisações. Agora, é preciso ampliar o enfrentamento: denunciar cada caso de violência, exigir responsabilização do poder público e, acima de tudo, lutar por condições dignas de trabalho para os trabalhadores da educação.

A luta nos chama!

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