O Partido Novo se elogiou tanto nas redes que esqueceu de avisar seus secretários

Como pode a mesma prefeitura estar “tão bem” e “sem dinheiro” ao mesmo tempo?

O Partido Novo publicou um texto inteiro em suas redes sociais para dizer que Joinville nunca esteve tão bem financeiramente. Segundo a própria gestão: dívida em apenas 15,93% da Receita Corrente Líquida, quando o limite legal é 120%. R$ 800 milhões em financiamentos já contratados e em execução. Mais R$ 1,8 bilhão em fase adiantada para novos projetos. Nota B+ na CAPAG do Tesouro Nacional. Arrecadação que cresceu 3,66% só no primeiro semestre de 2026, sem nenhum aumento de imposto. Fornecedores em dia. Selo Diamante em Transparência.

Mas algo não bate com os números.

É exatamente esta cidade, com pleno poder de investimento, que o secretário Andrei Kolaceke (Gestão de Pessoas) e o secretário Diego Calegari (Educação) descrevem como incapaz de honrar compromissos com os próprios servidores. Nas reuniões com o Sinsej, o discurso dos dois é sempre o mesmo: “restrições orçamentárias” e “não dá para gastar mais agora”. Foi assim com a carreira de agentes e assistentes administrativos, cujo projeto de lei nem sequer foi enviado à Câmara dentro do prazo que a própria Prefeitura estipulou. É o mesmo discurso usado, há meses, para travar a aplicação da Lei 15.326/26 para os profissionais da educação infantil, enquanto 44 municípios brasileiros, com muito menos poder de investimento, já avançaram nessa pauta.

Não dá para as duas coisas serem verdade ao mesmo tempo. Ou a cidade tem margem, capacidade de investimento e uma das dívidas mais baixas do país ou não tem dinheiro para honrar as demandas dos servidores. As duas versões saem do mesmo governo.

Quando o assunto é crédito internacional, selo de transparência e discurso de campanha, o dinheiro sobra e a gestão é “responsável”. Quando o assunto é carreira dos administrativos, enquadramento ao piso do Magistério ou ganho real de quem faz o serviço público funcionar no dia a dia, o cofre está sempre vazio. Essa seletividade não é acaso: é a mesma gestão que, na Reforma Administrativa de 2025, comprometeu quase R$ 100 milhões do erário para aumentar salários do alto escalão e criar cargos comissionados. Dinheiro para cargo de confiança, para terceirizações fracassadas, para a iniciativa privada, sempre. Dinheiro para quem presta o serviço público de verdade, “vamos ver no próximo fechamento de folha”.

O Sinsej não vai aceitar que a categoria pague a conta de uma restrição orçamentária que o próprio governo, em nota em suas redes sociais, jura que não existe. Se Joinville está tão bem quanto o Partido Novo diz, não sobra nenhuma desculpa para não aplicar a Lei 15.326/26 e não enviar, agora, o projeto de carreira dos agentes e assistentes administrativos à Câmara de Vereadores. Cobrar coerência entre o discurso e a prática não é criar crise, é exigir que a “gestão responsável” que o Novo tanto propaga valha também para quem trabalha e não só para quem serve como poste ou cabo eleitoral indicado dentro do serviço público.

 

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