Educação… Educação?

Por Mara Lucia Tavares*

“Menino de seis anos é proibido de fazer aula de educação física por uma semana após briga em Joinville”. Assim vem escrita a manchete no jornal de grande circulação em Joinville e região. Qual é a primeira impressão que se tem com essa frase? De que uma atrocidade foi cometida contra um ser inocente: uma criança de seis anos.

Tenho um filho de seis anos. Está no primeiro ano do ensino fundamental. Peguei-me pensando sobre a notícia e, como mãe, que poderia naturalmente estar envolvida nessa situação, em partes, fiz uma reflexão sobre o caso. Em partes, sim, pois ainda sou o tipo de mãe que acredita que educação deve ser dada em casa, apesar de a escola contribuir muito em certos casos, mas ainda deveria ser responsabilidade dos pais, dos “responsáveis” pela criança. Não que a criança que recebe educação “em casa” nunca cometa erros, mas que será repreendida, ao menos, pelo que tenha feito.

 Na verdade o grande problema não foi o que a criança fez, nem a atitude da professora, mas da mãe, na tentativa insana de tentar encontrar “chifre em cabeça de cavalo”, diriam os mais antigos. E da direção da escola, que permitiu que o problema tomasse tal proporção, não dando devido respaldo à professora e permitindo que o pai do aluno assistisse às suas aulas sem que a mesma, sequer, fosse consultada. Ainda penso que o diálogo resolveria grande parte dos “problemas”, inclusive os que acontecem nas escolas. A mãe não procurou dialogar profundamente com a professora, ouvi-la realmente, sobre as razões que a levaram a retirar o aluno das aulas de educação física naquele período, ou, ao menos, ser razoável. É preciso considerar ambos os lados, e não só o “meu”.

Tenham certeza de que a professora foi tristemente surpreendida com a atitude da mãe, que levou a público esse acontecimento. Coloco-me agora como professora que sou, também do ensino fundamental. Essas coisas mexem com o profissional que está ali, no seu local de trabalho, tentando, da melhor forma possível, exercer sua função de ensinar, passar conhecimentos ao aluno e, incessantemente, educá-lo, mostrar que a convivência com os outros exige que respeitemos o seu espaço, as suas limitações, as suas diferenças.

Quem trabalha em escola, quem conhece verdadeiramente o espaço escolar, sabe que é preciso conversar, conhecer e tolerar muitas coisas. Se a escola pensasse como essa mãe, e acionasse a justiça a cada irregularidade que vê, teríamos muitos, (muitos mesmo!) pais/”responsáveis” respondendo a processos sobre a educação, a assistência que dão (não dão) aos filhos. A escola tolera muita coisa, porque entende que antes de qualquer atitude é preciso conversar, esclarecer e até orientar as famílias que atende.

Entendam, pais, que praticamente tudo que fazemos tem consequências, boas ou ruins! Passem isso aos seus filhos! Apoiem os professores no exercício do magistério e ajudem a escola a trabalhar os valores.

A atitude da professora, na situação em questão, não deveria ser tratada como uma forma de “punição”. Foi o que ela, eu e tantos outros professores acharíamos correto a fazer. É uma forma de levar a criança a refletir sobre sua atitude (e com seis anos ela tem total condição de fazer isso!) e de garantir mais qualidade às aulas, o que está diretamente ligado à aprendizagem dos alunos, inclusive dessa criança. Além do mais, vale lembrar aqui que ensinar em um sistema público onde nem sempre se pode contar com boas condições de trabalho e onde nos deparamos, muitas vezes, com a superlotação das salas de aula, é uma tarefa, no mínimo, desafiadora.

O professor é um ser humano, e como todo ser humano, não terá 100% de aceitação dos outros. Podemos discordar, sim, uns dos outros, quanto aos conceitos, quanto às atitudes, quanto aos métodos, mas é preciso refletir, ponderar, às vezes, e respeitar, acima de tudo. Muitas vezes o que ensinamos na escola é “desensinado” em casa. Vejo esse, como um caso. Certas atitudes acabam reforçando como positiva ou inofensiva a atitude errada do aluno, e desmerecendo o esforço do professor em colocar ordem e dar qualidade às suas aulas.

É importante refletirmos sobre isso! Considero aqui a preocupação que se deve ter com os rumos que a sociedade vem tomando no que diz respeito à educação, e a nossa solidariedade à professora que não faz nada menos do que ser, em sua essência, professora.


*Mara é diretora do Sinsej e professora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × três =