As eleições, o voto e a luta dos trabalhadores

Por Ulrich Beathalter*

“O processo eleitoral deste ano é um dos mais despolitizados desde o fim da Ditadura. Ao invés de optar entre modelos de sociedade, vamos escolher entre pessoas. Alguém mais religioso, ou alguém mais ético, ou alguém que fala melhor… Os programas dos candidatos, porém, são muito semelhantes”. 

E chegou o período de eleições. E, novamente, a história se repete. Por um lado, a ilusão de que, por meio do voto, vamos mudar o país, o estado, o mundo. Não é à toa que o governo investe milhões em propaganda para manter em cada cidadão a crença no voto. Escute uma rádio qualquer ou assista qualquer emissora de TV. Todas repetem o tempo todo a importância do nosso voto, querendo fazer crer que realmente qualquer mudança só depende das teclinhas da urna eletrônica.

Como isso é possível, se as opções postas são as mesmas há algum tempo? Alguém realmente acredita que votar no Aécio (PSDB), na Marina (PSB? PV? Rede? – Afinal, qual é a dela?), no Pastor-não-sei-das-quantas, vai mesmo mudar o sistema sócio-político-econômico atual?

Já faz um tempinho que o debate se passa muito longe de alternativas ao modelo econômico e social. Aparentemente, o Capitalismo é o que há, hoje e sempre. Resta somente escolher quem administra melhor o Capital: os legítimos representantes dos banqueiros e grandes empresários ou os pseudo-representantes dos trabalhadores, que vendem a alma para se aliar à burguesia, conquistar sua confiança e simpatia para, no fim das contas, fazer um governo capitalista como qualquer outro, mas com uma imagem mais social ou democrática. E, nessa linha, ninguém escapa: Dilma com suas alianças atuais, Marina há muito aliada com Natura, Itaú e outras grandes empresas…

Causa náuseas as discussões estéreis de um lado e de outro. Os “direitistas” destilam um ódio irracional ao Lula, a Dilma, ao PT. Sem argumentos claros, tentam alimentar um medo do “golpe comunista” ou algo assim, como se a direção majoritária do PT ainda defendesse o socialismo. Os governistas, por sua vez, defendem os “avanços” do atual governo, com dezenas de comparações deste em relação aos governos anteriores. Marina aparenta ser uma novidade, com um programa que promete aprofundar as concessões (privatização!) dos serviços públicos. Afinal, como diz a candidata, não é preciso “ter medo da elite”.

Estão errados os governistas com suas comparações? De certa forma, não. Numa análise simplista, de fato o comportamento da economia nacional foi muito melhor nos últimos doze anos que em toda a era FHC/Sarney/Itamar/Collor… O Brasil é a sexta economia mundial, os bancos nunca lucraram tanto, o nível de emprego está estável… O problema é que ninguém explica a conjuntura favorável pela qual atravessou o país no último período. Uma crise violenta no sistema capitalista mundial fez muitos especuladores aplicarem seu dinheiro em países periféricos com algum potencial. Assim surgiram os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). Aliado a essa conjuntura, houve um imensurável aumento do crédito em nosso país. Nunca os trabalhadores se endividaram tanto. Então, por alguns anos, vivemos de fato um boom econômico, com farto “investimento” externo e incremento histórico do consumo interno. Esse período, porém, está passando.

A crítica que a direita não faz ao atual governo é a que incomoda aqueles que realmente acreditam num mundo mais justo, igualitário, sem a exploração do homem pelo homem. Ao invés de romper com o modelo de sociedade, o governo Lula-Dilma manteve e até aprofundou algumas políticas da direita. No segundo turno entre Lula e Alckmin, o debate se deu em torno das privatizações. Venceu Lula, pois o povo votou contra a entrega dos bens e serviços públicos à iniciativa privada. O que fez seu governo e o de Dilma, porém? Aprofundou a entrega de portos, aeroportos, estradas, hidrelétricas e outros serviços. Agora sob o modelo de “concessões”. É diferente, dizem constrangidos os defensores do governo. Em outra frente, tanto Dilma quanto Lula ignoraram a pauta dos trabalhadores: não diminuíram a jornada de trabalho, não eliminaram o fator previdenciário, atacaram a previdência dos servidores, não fizeram a Reforma Agrária, não regulamentaram as Convenções 151 e 158 da OIT (negociação no serviço público e fim da demissão imotivada), não ofereceram meios para que a Lei do Piso do Magistério fosse de fato cumprida pelos Prefeitos e Governadores… No governo Dilma, a política neoliberal foi muito além. A pedido dos empresários, Dilma desonerou a folha de pagamento. Isso terá consequências brutais sobre a Previdência dos trabalhadores em médio prazo. O ótimo desempenho da economia está pautado na redução ou isenção de impostos aos empresários (como o IPI do ramo automobilístico ou da linha branca dos eletrodomésticos) e na farta concessão de crédito aos consumidores. Nunca antes na história deste país estivemos tão endividados. Os servidores e seus consignados em folha que o digam.

Mas ninguém da oposição critica o governo do PT pelas questões acima. Nem Marina o faz. Seguramente porque fariam exatamente igual ou até com mais intensidade. Por isso, o processo eleitoral deste ano é um dos mais despolitizados desde o fim da Ditadura. Ao invés de optar entre modelos de sociedade, vamos escolher entre pessoas. Alguém mais religioso, ou alguém mais ético, ou alguém que fala melhor… Os programas dos candidatos, porém, são muito semelhantes.

Qual a saída para a crise mundial que agora bate à porta do Brasil? Como impedir demissões em massa, rebaixamento dos salários, melhoria da qualidade de vida da população? Como garantir transporte, saúde e educação públicos, gratuitos e para todos? O voto em outubro resolve isso? Pequenas variações da mesma receita – como têm apresentado os candidatos – não vão resolver. É preciso uma mudança radical no sistema. É preciso uma revolução. É preciso que os trabalhadores do Brasil inteiro se unam e tomem o controle da situação em suas mãos. Não basta ir pra rua apenas um dia. Não basta apenas uma greve isolada pelas reivindicações de uma categoria. É preciso em definitivo a luta coletiva dos trabalhadores do campo e da cidade, aliados à juventude, para extirpar os partidos e políticos da burguesia ou aliados a ela do cenário político da nação. É preciso um enfrentamento firme aos interesses dos grandes empresários, que não ousam sacrificar pessoas e o meio ambiente para garantir seus lucros.

Os trabalhadores precisam identificar aqueles seus verdadeiros representantes, aqueles que estão ao seu lado no dia a dia, em todas as suas lutas e necessidades. É com essas novas lideranças que será reconstruído um partido da classe trabalhadora, que governará com e para os trabalhadores e os mais necessitados da sociedade.

*Ulrich é presidente do Sinsej

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