O editorial que o Estadão não teve coragem de assinar como propaganda

No último editorial sobre educação, o jornal Estadão usou um levantamento do Todos Pela Educação sobre o Saeb 2025 para elogiar Joinville, tratando a cidade como vitrine de “boa gestão pública”. O Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) é um conjunto de avaliações criado pelo Inep para medir a qualidade do ensino oferecido no Brasil, mas sua metodologia e transparência têm sido alvo de denúncias e questionamentos no meio educacional. Por outro lado, os servidores e aqueles que utilizam os serviços públicos sabem como a educação sofre nas mãos do governo de Joinville. E é preciso, portanto, saber quem é esse “Todos Pela Educação” que o Estadão tanto cita e conhecer quem está na ponta fazendo a educação de Joinville acontecer, apesar das dificuldades.

O Todos Pela Educação não é um termômetro neutro
O Todos Pela Educação se apresenta como uma organização suprapartidária, mas sua estrutura de financiamento e sua rede de relações contam outra história. A entidade é mantida integralmente por recursos privados: fundações, institutos e empresas como Fundação Lemann, Fundação Bradesco, Fundação Itaú, Instituto Unibanco, Fundação Vale, entre outras. Não existe controle público sobre a metodologia, os recortes ou os enquadramentos que a organização escolhe divulgar. Ela divulga o que bem entender e beneficia quem quer beneficiar.

A Fundação Lemann, principal mantenedora do Todos Pela Educação, aparece repetidamente ligada à formação de quadros do Partido Novo. Em 2018, políticos recém-eleitos do partido (entre eles Romeu Zema, Tiago Mitraud e Vinicius Poit) participaram de uma imersão em Oxford sobre gestão pública e educação organizada justamente pela Fundação Brava, pela Fundação Lemann e pelo próprio Todos Pela Educação. Em 2019, a presidente-executiva do Todos Pela Educação foi convidada a apresentar a agenda “Educação Já!” no encontro nacional do NOVO. Tiago Mitraud, deputado do partido, chegou a participar de formações de assessores parlamentares promovidas pela entidade e organizou audiência pública sobre vouchers e escolas conveniadas com a participação direta da diretoria do Todos Pela Educação.

Tudo isso significa que tratar os levantamentos deste grupo como um dado técnico neutro, isento de agenda, é ingenuidade e, no caso do Estadão, má-fé editorial.

O secretário de Educação de Joinville também vem dessa rede
Diego Calegari Feldhaus, atual secretário de Educação de Joinville, é fundador do portal Politize!. E o Politize! tem parceria de produção de conteúdo documentada com o Todos Pela Educação (inclusive material publicado em conjunto sobre o Sistema Nacional de Educação), além de usar recorrentemente dados do Todos Pela Educação como fonte em suas publicações. O secretário que celebra nas redes sociais um índice produzido por essa rede é o mesmo que criou, dentro dessa mesma rede, um dos veículos que replicam a agenda liberal para educação.

Não é coincidência de bastidores. É a mesma matriz ideológica falando com o próprio espelho. E o Estadão só serve como papagaio de pirata, como uma caixa de ressonância do governo Novo ou daqueles que o jornal apoia no ano de eleição.

O que os números escondem: aprovação em massa, proficiência estagnada
Enquanto o secretário comemora o IDEB, os próprios dados do Inep contam uma história incômoda. A taxa de aprovação da rede municipal saltou para praticamente 100% nos anos iniciais nas duas últimas edições, um patamar que, até 2019, era registrado em menos de 5% das unidades escolares e que passou a se generalizar a partir de 2021. O Sinsej recebeu denúncias de professores relatando pressão da gestão escolar para aprovar estudantes sem condições, alterações em registros de presença sem anuência docente e conselhos de classe em que o desempenho individual foi ignorado em nome de metas impostas pela Secretaria.

Já a proficiência em Português e Matemática do Saeb (o segundo componente do IDEB) segue praticamente estagnada desde os saltos registrados em 2017 e 2019. Ou seja: o índice sobe porque a aprovação sobe artificialmente, não porque o aprendizado avançou na mesma proporção – se considerarmos que a prova seria realmente eficiente para medir aprendizagem. É esse dado truncado que vira manchete de jornal grande e argumento de campanha para o partido Novo.

O próprio Saeb também não é um termômetro neutro. O Sinsej vem denunciando que a avaliação, pensada como diagnóstico, se transformou em fardo: a sala de aula é reduzida a treinamento para a prova, docentes são cobrados por direções e pela secretaria para elevar notas a qualquer custo e crianças chegam a sofrer crises de ansiedade nos dias que antecedem o exame. Some-se a isso a defasagem das matrizes do Saeb em relação à BNCC e episódios de falta de transparência do próprio Inep. É sobre essa base, bastante questionável, que o Todos Pela Educação constrói seus levantamentos; e é esse material, sem qualquer desconto, que vira manchete elogiosa em jornal de circulação nacional.

O tratamento aos professores dado pelo governo Novo
Desde 2022, a gestão municipal criou o Índice de Desenvolvimento Educacional Municipal (IDEM), que condiciona as gratificações ao cumprimento de metas de fluxo e aprendizagem. Na prática, isso significa quatro avaliações anuais por estudante e um regime de treinamento contínuo para provas que empurra o planejamento pedagógico individualizado para segundo plano (com relatos de aulas de Ciências, História e Geografia reduzidas, na prática, a exercícios de Português e Matemática). E, vejam que interessante: o governo Novo levou ao pé da letra a recomendação de Adam Smith, em Riquezas das Nações, quando o teórico liberal argumentou que a população deveria apenas saber ler, escrever e contar.

A política de punição por faltas associada a salários estagnados também têm levado professores doentes a comparecerem ao trabalho para não perder o bônus. O Sinsej já registrou casos de gratificação negada a servidores enlutados ou em tratamento de quimioterapia. Educação é, de acordo com as denúncias que recebemos, um dos setores que mais sofre assédio moral na rede municipal.

Quem faz o índice não é quem governa
O próprio secretário reconhece publicamente, em vídeos, que Joinville teve a melhor nota do país entre cidades de grande porte, mas se esforça para atribuir esse mérito à gestão, não a quem efetivamente está em sala de aula. É a mesma categoria que ele diz não poder valorizar por “falta de orçamento” quando o assunto é salário, mas que vira vitrine de resultado quando o assunto é propaganda de governo. Enquanto isso, a Lei Federal 15.326/26, que trata da carreira dos profissionais da educação, segue sem aplicação em Joinville, e a Secretaria não responde às cobranças da categoria sobre o tema.

Some-se a isso a sobrecarga burocrática relatada por professores da rede: turmas de até 35 alunos, salas com sete ou mais estudantes laudados sem suporte individualizado adequado, e uma “fábrica de planilhas” de pré-conselho que consome a hora-atividade que deveria servir para planejar aula e corrigir prova. É nesse cenário que os professores de Joinville sustentam o melhor resultado do país entre grandes cidades…não graças à gestão, mas apesar dela.

O pano de fundo: PPP e privatização
O contexto em que esse editorial aparece não é neutro. A Câmara de Joinville aprovou recentemente uma Parceria Público-Privada para a construção e gestão de infraestrutura de 27 novas unidades escolares: contrato estimado em R$ 4 bilhões, por 25 anos, com contraprestação mensal de cerca de R$ 14,7 milhões pagos pela Prefeitura à empresa vencedora. Nos CEIs já administrados por PPP na cidade, os professores não são concursados: quem contrata é a empresa gestora.

Joinville já tem histórico de parcerias desse tipo terminando em precarização: o Hospital Infantojuvenil Dr. Jeser Amarante Faria, entregue a uma Organização Social, hoje enfrenta filas de até 12 horas e teve o setor de queimados desativado; o Hospital São José acumulou terceirizações fracassadas; os restaurantes populares foram entregues a uma OS cujo diretor chegou a ser preso por corrupção; o transporte público privatizado é hoje um dos serviços mais criticados pela população; e a tentativa de vender metade das ações da Companhia Águas de Joinville só não avançou por mobilização popular.

É dentro dessa estratégia, a de entregar pedaço por pedaço do serviço público ao mercado, que um editorial elogiando a “boa gestão” da educação em Joinville, baseado em dados de uma rede próxima ao Partido Novo, cumpre uma função política clara: preparar terreno de opinião pública para a próxima etapa da privatização.

A educação de Joinville é, de fato, uma referência nacional. Mas são os professores, os auxiliares de educador, os ADIs e as equipes escolares – servidores públicos que sustentam esse resultado em salas superlotadas, sob pressão de metas, sobrecarga de burocracia e salário estagnado. A gestão do partido Novo, que se apropria do número para fazer propaganda enquanto nega valorização a quem o produziu, não tem mérito nenhum na questão. E o índice que embasa esse elogio vem de uma organização, o Todos Pela Educação, financiada por bancos e empresas privadas e conectada, por múltiplos vínculos documentados, à mesma rede política que hoje governa a cidade e avança sobre a PPP da educação. Não é isenção técnica. É propaganda com aparência de dado.

O Sinsej seguirá cobrando valorização salarial, cumprimento da Lei 15.326/26, fim da pressão por metas que não condizem com a natureza da educação e a rejeição da PPP da educação. Quem ensina em Joinville são os servidores públicos, não os índices que o governo usa para se vender.

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