A verdade que o secretário de Educação não conta sobre o IDEB de Joinville

Nossa cidade possui uma educação vencedora de diversos prêmios, não é de hoje, e tudo isso é fruto daqueles que, de fato, a fazem acontecer: estudantes e professores que estão na ponta.

Filosoficamente, o papel da educação é, no processo dialético de contato com os conhecimentos acumulados pela humanidade, garantir o direito do estudante e do professor de questionar a ideologia dominante,  os métodos de ensino e debater a sociedade. Ela não serve apenas para transferir o conhecimento humano para os estudantes, mas também para desenvolver nele  a capacidade de fazer reflexões, pensar por si mesmo e buscar as ferramentas para transformar a realidade. Contudo, a realidade diária da educação mostra um cenário diferente. O sistema está cada vez mais burocrático e tecnicista, levando estudantes e professores à exaustão, sem a devida crítica sobre o propósito do conteúdo ministrado.

Em Joinville, a atual política pública educacional apresenta mais do mesmo. Na gestão do partido NOVO, a prefeitura e a secretaria da educação, por meio do secretário Diego Calegari Feldhaus, levam essa lógica ao extremo. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o secretário celebra o resultado de Joinville no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que mais uma vez obteve a melhor nota do Brasil entre as cidades com mais de 500 mil habitantes. Mas o que isso significa na prática e o que está por trás desse número?

O secretário utiliza os dados de forma conveniente, sem contextualizar a realidade. O IDEB é um indicador composto, calculado pelo produto da taxa de aprovação e do desempenho obtido no Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB). Se analisarmos exclusivamente os números absolutos, o IDEB de 2025 para os anos iniciais foi de 7,1 e para os anos finais, de 6,0. Em comparação aos resultados de 2023 (7,0 e 6,0, respectivamente), houve um aumento de apenas 0,1 nos anos iniciais. É fato que, entre as cidades do porte mencionado, nosso resultado foi o maior do Brasil. Mas o que não é dito pela gestão municipal?

Ao observarmos com atenção os mesmos números do IDEB e SAEB divulgados pelo INEP, a realidade da educação de Joinville conta outra história.

Sobre o primeiro fator da nota do IDEB (taxa de aprovação), podemos notar, conforme os gráficos de distribuição, que a aprovação geral da rede subiu para 100% nos anos iniciais nas duas últimas edições da avaliação, mantendo-se muito próxima do teto também nos anos finais. Essa seria uma excelente notícia, caso encontrasse lastro nos resultados do SAEB. Contudo, é fundamental pontuar que o Sinsej, durante visitas aos locais de trabalho e atendimento aos servidores, recebeu diversas denúncias de pressão da gestão escolar para aprovar alunos inaptos, segundo a avaliação dos próprios professores. Houve inclusive relatos de possíveis alterações nos registros de presença por parte da Secretaria da Educação, sem a anuência do docente, além de reuniões de conselho de classe onde o desempenho individual dos estudantes era ignorado em favor de pautas impostas pela Secretaria. Até 2019, o índice de aprovação de 100% ocorria em menos de 5% das unidades, saltando exponencialmente a partir de 2021.

Os dados do gráfico estão no intervalo de 0,9 a 1,0 para facilitar a visualização.
Antes de 2021 a quantidade de unidades escolares com 100% de aprovação era inferior a 20% das unidades avaliadas.

Sobre o segundo ponto de composição do IDEB, a proficiência em Português e Matemática do SAEB, observa-se a progressão da nota padronizada, ou seja, as médias atuais não são as melhores já registradas pela rede, sendo inferiores a períodos que antecedem a esse fenômeno recente de aprovações em massa. Apesar de um aumento significativo nas edições de 2017 e 2019, o índice se mantém praticamente estagnado.

Houve um aumento significativo nas edições de 2017 e 2019, mas se mantém praticamente linear desde 2013.

Mas o que tem sido feito para melhorar a proficiência? A gestão municipal criou, em 2022, uma gratificação para premiar o cumprimento de metas, replicando a lógica do IDEB em um indicador local chamado Índice de Desenvolvimento Educacional Municipal (IDEM). Para os estudantes, as metas focam no fluxo escolar e na aprendizagem (medida por avaliações anuais). Para os professores, exige-se frequência integral, entrega de planejamentos e participação em formações continuadas.

A teoria parece promissora, mas a execução é falha. O fluxo escolar traduz-se apenas na aprovação contínua dos estudantes, como já detalhado. A aprendizagem é medida por meio de um treinamento exaustivo: os estudantes são submetidos a quatro avaliações anuais (diagnóstica, formativa e somativa), sendo esta última o parâmetro para o pagamento da gratificação aos profissionais da educação.

Métricas são fundamentais para avaliar desempenho, mas esse processo de treinamento contínuo descarta o planejamento individualizado, que deveria atender às reais necessidades da comunidade e dos estudantes. Planos de aula engessados são, muitas vezes, impostos aos professores. Uma prova disso são os relatos de que aulas de Ciências, História e Geografia, por exemplo, na prática, não passam de aulas de Língua Portuguesa e Matemática disfarçadas, direcionadas às avaliações que giram em torno dessas duas disciplinas.

A política de punição por faltas, aliada aos baixos salários, força professores doentes a irem trabalhar para não perderem o bônus, colocando a comunidade escolar em risco. O Sinsej já denunciou casos em que o valor foi negado a profissionais dedicados que adoeceram no ambiente de trabalho ou que se ausentaram por luto.

A entrega de planejamentos deveria ser rotineira. No entanto, a sobrecarga burocrática impede os professores de concluírem essa atribuição básica, obrigando-os a utilizar materiais prontos da administração municipal, que contém erros crassos como no mapa da América Central, por exemplo.

Por fim, a formação continuada, embora seja uma excelente ideia, possui execução duvidosa. Da forma como é aplicada, subtrai a hora-atividade dos professores, impõe deslocamentos absurdos e ocorre em locais por vezes sem infraestrutura adequada, desorganizando também a vida pessoal e familiar dos profissionais.

Tudo isso tem sido apresentado como esforço para melhorar a proficiência, mas os próprios números indicam que a estratégia não funciona. O que precisamos para uma melhoria efetiva engloba salas com número reduzido de alunos, auxiliares devidamente preparados e remunerados, com tempo real para planejamento. Vale lembrar que a prefeitura rebaixou a exigência técnica para auxiliares de inclusão, não requerendo mais formação em magistério, com propósito de reduzir salários e não reconhecê-los como profissionais do quadro do magistério (Lei 15.326/2026).

Precisamos de salários dignos, não de promessas de gratificações voláteis. Os recursos dessa política de recompensa condicionada deveriam ser incorporados aos salários base, garantindo segurança financeira e saúde ocupacional aos servidores. A atual gestão replica um indicador nacional em nível local, promovendo o treinamento excessivo para provas em detrimento da aprendizagem real e do desenvolvimento crítico dos estudantes.

Concluindo, a observação da série histórica de 2005 a 2025 comprova que o indicador atual comemorado pelo secretário não reflete um salto de qualidade na aprendizagem, mas o impacto da política de aprovação compulsória e retirada de faltas dos alunos que excederam o limite máximo. Joinville sempre sustentou ótimos resultados alicerçados no ensino real em sala de aula; o que a atual gestão celebra é um índice estatisticamente inflado, que ignora a estagnação da proficiência e mascara a exaustão dos profissionais que realmente sustentam a educação no município.

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