Golpe no Paraguai

Por Ulrich Beathalter

O que aconteceu no Paraguai no fim da semana passada precisa ser amplamente discutido aqui no Brasil e no mundo. O golpe contra o presidente Lugo revela uma face cruel desse sistema político, que é comum à maioria dos países, e que serve apenas para garantir os interesses dos grandes latifundiários, banqueiros e empresários.

Aparentemente, vivemos numa democracia. Todos podemos votar, escolher nossos governantes, desde o vereador da cidade até o presidente da República. Também temos o direito de opinar, reclamar, elogiar… Tudo isso funciona enquanto os interesses dos grandes capitalistas não é afrontado. Basta que algum governante passe a atender de fato as reivindicações dos trabalhadores e das camadas mais sofridas da sociedade, contrariando o interesse do Capital, que a fachada democrática desaba. Não importa o voto de milhões de pessoas. Não importa a opinião pública geral. O empresariado aplica os golpes mais baixos, mais rasteiros, para restabelecer seus interesses, para garantir que seu lucro não seja atacado.

Foi assim no Paraguai. Milhões de pessoas, os mais pobres daquele país, votaram no presidente Lugo, contrariando o grande partido Colorado, que historicamente representou os interesses dos mais ricos. As classes privilegiadas paraguaias não hesitaram em usar sua maioria no Senado para depor um presidente legitimamente eleito, com uma acusação ridícula, e sem qualquer chance de defesa. Meia dúzia de pessoas decidiu por milhões. É muito diferente do que ocorreu no Brasil com o Collor. Aqui, o Collor só caiu porque a população tomou as ruas e exigiu sua derrubada. O Congresso não pôde acobertar os desmandos e teve que agir, abrindo um processo que durou meses e não se concretizou, pois Collor renunciou antes da votação.

Mas o que aconteceu no Paraguai vem acontecendo mundo afora, em diferentes momentos e em níveis diferentes níveis de violência. Aqui no Brasil as elites usaram a força armada em 64 para tomar o poder. O mesmo foi feito em quase toda a América Latina. Em 1973, no Chile, mataram Allende, o primeiro presidente socialista marxista eleito na América. Em Honduras, no ano de 2009, depuseram o presidente Zelaya, depois que ele ousou chamar uma Assembleia Constituinte.

Poderíamos enumerar dezenas ou centenas de exemplos, mas o que todos traduzem é o que eu disse há pouco. A falsa democracia que vivemos só se sustenta enquanto atende aos interesses dos mais ricos. Quando as elites querem aplicar suas medidas, não há consulta popular ou instância democrática que os impeça. Vejam o que acontece agora em Santa Catarina. O governador Raimundo Colombo insiste em entregar a saúde pública para empresas disfarçadas de “Organizações Sociais”. Não importa que a população seja contra, não importa que os conselhos municipal e estadual de saúde sejam contra. Não importa que o sindicato dos trabalhadores da saúde seja contra. O que vale é o interesse do empresariado e os acordos firmados com o financiamento das campanhas eleitoriais.

Mas nem tudo está perdido. O que não podemos tolerar é que nossos dirigentes continuem alimentando as ilusões no sistema. Os sindicatos, associações e demais organizações populares precisam falar a verdade e preparar os trabalhadores e a população oprimida para resistir e impedir que suas conquistas sejam destruídas e que seus dirigentes sejam cassados como se fossem criminosos.

A saída, como sempre, está na unidade, organização e luta da nossa classe.

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